sexta-feira, 6 de junho de 2014

ESTRANHO SONHO

Trabalho apresentado na VIII Jornada da Delegação Geral Maranhão da Escola Brasileira de Psicanálise - "Trauma e Violência no mundo contemporâneo"

 Carmen Damous 


No seu terceiro ensaio da sexualidade, em 1905, Freud imprime o que considera a mais dolorosa das metamorfoses da puberdade, o “desligar-se da autoridade dos pais”, não propriamente dos pais em carne e osso, mas do que incorporou, via identificação com os pais, que internalizados, integram o super eu, herdeiro do complexo de Édipo.

Diz ainda que “unicamente através do desligamento da autoridade dos pais, se cria a oposição, tão importante para o processo da cultura, entre a nova e a velha gerações.” Esse “desligamento” remete a Lacan que situará a possibilidade de um sujeito responsabilizar-se por seu gozo ao “ultrapassar o pai, servindo-se dele”, de forma que, a crise da adolescência possa ser denominada “crise do pai”, em ultima instância. Trata-se de reinventar a figura do Pai, construir semblantes que substituam ou alternem com a função pai, pois só assim haverá desligamento e como ultrapassá-lo, servindo-se dele.

            São decorrentes da tensão que se estabelece com a puberdade, os impasses entre alienação e separação. O processo de alienação, relativo ao encontro do sujeito com a linguagem, que o precede antes dele existir, traz dessa passagem do sujeito alienado ao sujeito separado, algumas implicações. O movimento de desenraizamento do Outro, através da operação de separação, coincide com a travessia da fantasia, fantasia como uma defesa contra o real?      

É diante da fotografia para o álbum de família, onde o pai, sargento da ROTA, impecável em seu uniforme e a mãe, também policial militar, com um sorriso tímido para a câmera, estão ao lado do menino que abraça orgulhosamente o pai, policial condecorado; fotografia esta que passou a ilustrar as múltiplas reportagens sobre a chacina que atingiu a família de classe média paulistana, onde cinco integrantes foram mortos: pai, mãe, avó, tia-avó e o filho do casal.
            Para a polícia, o principal suspeito do crime é o filho do casal, de treze anos de idade que, depois da chacina teria ido ao colégio, dirigindo o carro da mãe e lá revelado a alguns colegas que havia matado os pais, a família inteira, o que não acreditaram. Ao retornar para casa ao meio dia, de carona com um coleguinha, deu-se conta do vazio e se mata.

            Apesar de juristas e o senso comum questionarem este laudo, foi finalmente atestado a veracidade das primeiras suspeitas.

            O garoto teria confessado a um amigo que tinha “o sonho de ser um matador de aluguel”. Era fã de games violentos. Um estranho sonho profissional, um sonho que vai além do Édipo, onde sem pai, sem norte, “sem bússola” como diria Jorge Forbes, por caminhos distintos, como um enigma diante de desejos contraditórios ao fazer escolhas, diante da encruzilhada a ser atravessada pelo sujeito, nos faz ver a “impossibilidade da transmissão da lei paterna à altura do imperativo de gozo”:  “O real em jogo na puberdade”.

            Para Miller, o Seminário 6 de Jacques Lacan, “é feito para ir além do Édipo, na direção da fantasia. E essa relação ‘S barrado, punção, pequeno a’, essa relação afinal binária, com múltiplos sentidos, lhe parece mais profunda que a triangulação ou a quadrangulação edipiana.”

            Segundo Miller, no Seminário 7, “Lacan vai mostrar que o lugar principal é ocupado não pelo Nome-do-Pai, mas pelo que ele chama de a coisa, a saber, o gozo. A coisa vem no lugar do Nome-do-Pai, que acabara de ser destronado.”

            No Seminário 11, cita ainda Miller, “Lacan explica que não há Outro do Outro, que significa que não há o Nome-do-Pai, no máximo, há nomes-do-pai.”

            Para este adolescente, “calmo, tímido, caseiro, apegado aos familiares”, quais são as chances para que o sujeito possa valer-se da herança paterna, no momento em que, na adolescência, precisa ultrapassá-lo?

            O contexto atual com “novas formas de sintoma”, em que os ideais dão lugar aos objetos feitos para gozar, numa sociedade “hipercapitalista”, interfere nos processos identificatórios, produzindo alterações na constituição do Ideal do Eu, previsto por Freud e Lacan como “apaziguador” da ferocidade do “super eu”. Podemos considerar as identificações  hoje como diferentes soluções e defesas ao real como impossível de suportar.

Na atualidade, que estatuto para o Ideal do Eu que, enquanto insígnia fálica, possa permitir ao sujeito, frente ao declínio do Édipo, transformar o gozo perdido em causa maior, a causa do desejo?


                                                      

Referências Bibliográficas:
- Freud, S (1905). “Três ensaios sobre a sexualidade”. Vol  VII. Imago, 2006.
- Lacan, J (1976). Le Sinthome (aula de 13/04/76).
-Lacan, J (1964). Seminário  11.
- Miller, J. – Alain (2013). “Uma reflexão sobre o Édipo e seu mais além.”



quarta-feira, 21 de maio de 2014

O CORPO AFETADO PELA PALAVRA


Trabalho apresentado na  VIII Jornada da Delegação Geral Maranhão da Escola Brasileira de Psicanálise - "Trauma e Violência no mundo contemporâneo"

                                                                    Silvana Sombra*

Na minha vivência de anos na clínica médica, ouvindo falas diversas tendo como centro o corpo, testemunho desde então o que escapa à ciência. Os pacientes que não se conformam em tanto sentir e nada retratarem em seus exames clínicos e laboratoriais, e os que nada sentem e se encontram ali questionando tantas alterações evidenciadas em exames: “mas como se não sinto nada?”. No primeiro caso às vezes um profissional médico o encaminha a um profissional da área psi, no outro há quase um alívio em se tratar uma enfermidade sem queixas. Há ainda os casos em que não há resposta ao tratamento médico, são transtornos corporais em que não se pode diagnosticar como enfermidade orgânica, são os casos em que a falha se faz real no corpo do paciente, seria o psicossomático, que Lacan coloca nos termos de falha epistemo-somática1. Na psicossomática o sujeito cessa de ser representado, havendo a falta da descontinuidade, não há uma articulação significante, mas podemos dizer que ele situa-se nos limites da linguagem, contornando a sua estrutura, não indexado ao outro do significante, mas muito próximo do traço unário.  Haveria nesses casos resposta ao tratamento psicanalítico, já que ele lida com o significante?

O que é sintoma para a Psicanálise?Freud assim define o sintoma: “O sintoma é substituto de uma satisfação pulsional que não se realizou”. Na psicanálise vemos que não há uma correspondência entre ser e pensar: são antinômicos. O sintoma então é o substituto da doença, é a metáfora dela, ou seja, é a própria doença. Sua manifestação é essencial e vem do inconsciente, daquilo que temos de mais desconhecido de nós mesmos e revela o que temos de mais verdadeiro. Como exemplo temos um paciente que procura análise para “salvar” seu casamento trazendo o sintoma que ele conhece como disfunção sexual, desejo extraconjugal e descobre durante o percurso o contrário do que veio propor. O que então o sujeito traz como sintoma, podemos dizer que é o significante que veio no lugar do sintoma, pois este é ignorado por ele ao mesmo tempo que o representa.

O que fala um corpo? O que se fala de um corpo? O que se fala com um corpo? Vários saberes tentam articular resposta ao que não cessa de nos interrogar, não cessa de se inscrever. A psicanálise assente que o corpo não fala, fala-se com um corpo. Podemos dizer que a psicanálise, a ciência e a arte colocam diferentes abordagens sobre esse real do corpo.

Ao falar dirige-se a voz diante de um Outro, para que seja ouvido e então o responda. Falar implica o desejo e a castração, visto que outro corpo é necessário para assegurar o corte do qual o sujeito se desprende e se recobre. A fala, esta tentativa de chegar ao outro, inaugura no corpo um acontecimento que o divide e o lança no campo do desejo e do gozo, e é aí que a medicina tomando o corpo como um sistema homeostático em sua dimensão animal, o organismo biológico dado pela ciência médica, deixa de fora esse sujeito desejante e gozoso. O animal como lembra Jacques Allain Miller em “Biologia lacaniana e acontecimentos do corpo”, não se desvia do que tem a fazer, do que é impulsionado: “quão mais discreta, mais tranquila e mais certa é a vida que não fala”. Escuta-se na medicina, uma escuta médica, os dizeres de um corpo e opera-se no campo do discurso do mestre onde há o saber consistente do que é normal e patológico, há um saber escrito no biológico e o médico o estuda, simboliza esse real, é o sujeito do saber. Já na psicanálise há um outro corpo em questão, aquele em que a medicina não conseguiu extrair saber, é o saber do inconsciente que é singular, que chama a ser decifrado, está em outro lugar, o lugar do Outro, que só existe pela transferência e esse corpo, o que é mais importante, é habitado por um gozo. E é nesse ponto que a medicina no campo da fala cede o lugar para a psicanálise.

Pululam na fala do sujeito os dizeres sobre um corpo, embrenhado no simbólico ele demanda o que desconhece em suas entranhas, o saber médico responde a esse sintoma médico. Algo a mais escapa, em se tratando de corpo temos para além da demanda da cura o gozo do próprio corpo. Algo está feito para gozar, gozar de si mesmo, é o que encontramos na perspectiva lacaniana acerca do corpo. Lacan em um colóquio sobre ‘O lugar da psicanálise na medicina’, coloca: “quando o doente é enviado ao médico ou quando o aborda, não digam que ele espera pura e simplesmente a cura. Ele põe o médico à prova de tirá-lo de sua condição de doente, o que é totalmente diferente, pois isto pode implicar que ele está totalmente preso à ideia de conservá-la. Ele vem nos pedir para autenticá-lo como doente. Em muitos outros casos ele vem pedir, do modo mais manifesto que vocês o preservem em sua doença, que o tratem de maneira que lhe convém, ou seja, aquela que lhe permitirá continuar a ser um doente bem instalado em sua doença”2.

Se o que se fala de um corpo corresponde a um real, certamente é o da ciência, não o real inassimilável, que é o da psicanálise. Máquinas, equipamentos moderníssimos rastreiam esse corpo em que habitamos. Ao olhar uma ressonância é o estranho que se evidencia, sabe-se que há um padrão e fora desse o patológico, há quem o saiba, no caso o médico, através da ciência e dará respostas, mas quão alheio se está em relação a esse funcionamento! Nenhuma tomografia craniana mostrará as aflições; as angústias não aparecem em nenhum exame bioquímico; onde estamos nesse que desconhecemos? O sujeito está fora dessa investigação, invisível.  Eric Laurent em seu texto ‘Falar com seu sintoma, falar com seu corpo’ explicita: “O corpo simbólico é a linguagem, o conjunto dos equívocos da língua. O imaginário é o que permite nos virarmos, o modelo. Mas o que pode ser o corpo real? Para Lord Kelvin é isso que a ciência se recusa a admitir, tem-se um modelo, mas não se sabe o que é o corpo real. A esse respeito não há hipótese”3.

No falar do corpo, vamos encontrar as frágeis coordenadas simbólicas norteando um modelo, o imaginário. Indo mais além no campo da psicanálise falar com um corpo pontua o encontro do significante com o gozo, tratando-se da pulsão na fala ou linguagem e pulsão.  Na medida em que se fala sobre um corpo fala-se com ele, o falasser precede, o falasser usa o corpo para falar. Falar ardo de febre, doi o corpo, tenho calafrios, chama o saber médico; ao falar ardo de amor, estou de forma insuportável devastado por esse sentimento, porque estou assim? Pode-se fazer um outro endereçamento, ao psicanalista. O falasser usa esse corpo para produzir o sintoma analítico, mostrando aí um para além do necessário saber médico.

No caminho percorrido pela psicanálise podemos dizer que em Freud temos uma lição apreendida das histéricas que é um falar com um corpo, que depois Lacan coloca como um corpo do significante, que fala algo deste corpo, para então em seu último estudo colocar como o corpo do gozo, o da gramática da pulsão, onde toda emissão da palavra é pulsional, corpo onde ecoa um dizer e haja psicanalistas para essa escuta necessária.

*Médica, AP, participante da Delegação Geral Maranhão/ EBP

NOTAS
1. Lacan, J (1985). Psicoanálisis y medicina. In Intervenciones y textos, 92.
2. Miller, J. –A (2001). O lugar da psicanálise na medicina. Opção Lacaniana 32,10
3. Laurent, E (2013). Falar com seu sintoma, falar com seu corpo. Correios 72, 20